sexta-feira, 20 de março de 2009

3-Iron (Bin-Jip)

Autor: Ibertson Medeiros

Essa resenha é cortesia do blog:

Nome: 3-Iron "Bin-Jip" (CASA VAZIA) - 2004


Diretor: Kim-ki duk
Elenco: Seung-yeon Lee, Hyun-kyoon Lee, Hyuk-ho Kwon, Jeong-jo Choi, Ju-seok Lee.

Casa Vazia, dirigida pelo sul-coreano Kim-ki Duk, altamente elogiado festivais afora e dono de características próprias em seus filmes é original, foge da habitualidade do gênero escolhido (No caso, o romance), enfim, um filme que desperta algo nos cinéfilos por conta de sua exclusividade. É um filme tão diferente e que possui uma beleza poética tão grande que torna-se difícil tecer alguma opinião concreta sobre ele.

O diretor é conhecido por suas obras que dão uma prioridade às imagens e possuem pouquíssimos diálogos, havendo quase que uma nulidade de palavras. No caso do primeiro filme que vi de Kim-ki Duk, o surpreendente Time: O Amor contra a passagem do tempo (Shi gan), também ocorre uma maior concentração no sentido visual, mas possui até conversas constantes durante o filme. Já nesse trabalho, o diretor realmente decidiu cortar diversas conversações e seus personagens comunicam-se com gestos, por atos, fazendo com que traçem uma comunicação com ausência de palavras, mas sendo integralmente absorvida pelo receptor das mensagens. Os sentimentos são externados através de olhares e de feições e as únicas palavras proferidas no filme são por conta de pessoas estranhas ao relacionamento do casal principal.


O filme já é incomum justamente por sua trama, onde um jovem de conduta e procedência desconhecidas vaga pelas ruas com sua moto possante distribuindo anúncios de um restaurante, talvez, nas portas das casas. Passado um tempo, ele volta ao mesmo local onde distribuíra as propagandas e verifica que ainda estão coladas nas portas, ou seja, há um grande indício de que estejam vazias e seus moradores estejam em viagem ou algo do tipo. Então o rapaz tira de uma maleta que leva consigo alguns instrumentos e consegue abrir a porta da casa escolhida. Adentra no recinto, dá uma boa vasculhada no local, toma um banho, se alimenta e para "pagar" sua estadia, ele procura fazer alguma coisa pelos moradores. Lavar suas roupas, consertar um aparelho de som ou um relógio de parede são algumas das ações praticadas pelo homem. Outro comportamento constante dele é tirar fotos nos cômodos da casa, de preferência perto de fotos da família ou próximo a quadros. Como se pode observar, um ser humano presumivelmente solitário e sem uma ocupação, às vezes sentindo-se invisível perante à sociedade.

Ele vai fazendo isso em diversas casas, até que comete seu erro: Entra em um domicílio que não está vazio e é surpreendido pela moradora, Sun-hwa (Seung-yeon Lee), uma jovem bonita, mas triste e constantemente agredida pelo marido. Em vez do espanto, ato mais conveniente para essa situação, a moça age com indiferença, apenas observando. Tanto o estranho invasor quanto Sun-hwa possuem vidas vazias, infelizes e são unidos através dessa pulsante solidão sofrida por eles. Há uma esperança de felicidade em seus corações quando estão perto e a partir dessa bizarra relação que o filme se desenrola, encontrando os inevitáveis obstáculos no caminho. Isso sem trocarem qualquer palavra.

Não é explicado durante o filme o porquê do rapaz invadir as casas, onde somente os espectadores podem especular acerca de seu passado e de suas decisões. E apesar de constituir crime invadir domicílios alheios, ele não furta nada, não age com violência e até ajuda a limpar a casa ou consertar algum aparelho, mas as pessoas não gostam desse tipo de ação. Normalmente, reagiriam e pensariam logo que se tratasse de um ladrão, no entanto, quando ele invade a casa de Sun-Hwa, a moça está em uma tristeza tão grande, entorpecida, que não reage e até passa a acompanhá-lo em suas invasões. Algo questionável na realidade e motivo de desgosto ao filme por causa dessas cenas, por reconhecê-las como inverossímeis, mas Kim-ki duk é esperto e dá ao seu filme um caráter reflexivo, filosófico e por vezes onírico, pontuando ao final da obra uma frase que sintetiza essa idéia: "É difícil dizer se o mundo em que vivemos é uma realidade ou um sonho".

Portanto, não vá pensando que o filme entrega tudo mastigadinho para você que poderá se decepcionar. Ele instiga o espectador a criar soluções no que se passa em tela, em determinados momentos. E dá espaço a muitas interpretações para a história, principalmente no seu desfecho simbólico, utilizando apenas imagens. É como se mostrassem diversos quadros para analisarmos e procurar um sentido para eles, de acordo com nossa imaginação e perspicácia para decodificar a mensagem. A beleza do filme está aí, já que é uma verdadeira poesia em movimento, seja por suas belas paisagens, enfatizadas pela fotografia e trilha sonora ou seja pelas atitudes dos personagens. O filme possui uma narrativa lenta, mas é curtinho, menos de 1 hora e meia de duração, nunca ficando chato, a não ser que realmente não esteja disposto a destrinchar a obra.

Por fim, gostei da minha segunda incursão em um filme de Kim-ki Duk, onde ele obriga o espectador a pensar e não apenas assisti-lo como diversão. Possui ótimas atuações, as já citadas fotografia e trilha sonora e posso dizer que é um dos filmes de romance mais diferentes que já assisti. Algumas atitudes do invasor (Nunca tendo seu nome citado, apesar de constar no IMDB) eu ainda não encontrei um sentido lógico e realmente ele leva a sério o fato de ficar calado para não implicá-lo em alguma pena durante o filme, incomodando um pouco. Algumas vezes até pensei se ele tinha distúrbios mentais, mas isso são apenas interpretações pessoais dadas à obra, normais para qualquer espectador. Pretendo conhecer outras obras do diretor, já preparado para raciocinar, se seguir a linha desse ou de Time, por exemplo.

Nota: 08.00/10.00 (Cinema Para Todos)