quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

Sympathy for Lady Vengeance

Autor: Diogo Giglio

Nome: SYMPATHY FOR LADY VENGEANCE (LADY VINGANÇA) - 2005


Elenco: Yeong-ae Lee, Min-sik Choi, Dal-su Oh, Seung-shin Lee, Byeong-ok Kim

Diretor: Chan-wook Park
Trailer: Youtube


Quando a fama da trilogia da vingança de Chan-wook Park ganhou dimensões internacionais com Oldboy, os cinéfilos que viraram fãs do diretor começaram a se perguntar o que poderia vir depois do sensacional Oldboy. A expectativa em torno do capítulo final da trilogia era altíssima, uma vez que o seu antecessor fora um sucesso estrondoso. E Park não decepcionou: fez outro filme magnífico.

Diferentemente de Mr. Vengeance, em que os personagens eram reféns de situações complexas e de Oldboy, que tem um protagonista sem moral nenhuma e que não tem controle sobre a vingança, Lee Geum-ja, a Lady Vengeance, é como o Chapolim: tem tudo friamente calculado para completar a sua vingança. Tão calculado que faz de Lady um filme "reto", sem reviravoltas, que conta a busca por vendetta de Lee Geum-Ja, que passa 13 anos na cadeia depois de assumir a culpa num crime que não cometeu, e vê sua filha ser levada pelo seu ex-namorado e verdadeiro responsável por tudo: o Sr. Baek (Choi Min-sik).



Dos três longas, Lady Vengeance é o que traz o dilema moral mais explícito e o que mais usa flashbacks. Eles nos levam para a época em que Geum-ja estava presa e nos fazem entender porque ela é chamada de "anjo" pelas outras detentas, além de nos fazer conhecer a história das personagens com quem se envolveu durante a prisão (e aqui merece destaque a detestável caminhoneira que espanca as companheiras de cela e... bem, vejam o filme e 'degustem' a cena do banheiro. Hehehehe).

E não ouse pensar que pelo fato da personagem principal ser mulher a vingança será mais leve. Muito pelo contrário: este é o filme em que o sadismo se mostra de forma mais clara. O culpado não pode apenas morrer, tem que sofrer, e sofrer como um cão. Mas apesar do culpado ter de sofrer, o filme não é tão violento (me refiro à violência psicológica, que nos outros filmes é imensa) quanto Mr. Vengeance e Oldboy, o que provavelmente vai frustar aqueles que esperam marteladas e rins de traficantes arrancados. Mas "não priemos cânico!" O filme tem seus momentos "Ichi: The Killer" (filme japonês, clássico do gênero "tortura"), como o que Geum-Ja dá um tiro na mão de um bandido e arranca a mão do cara.



Considero Lady Vengeance um pouco (pouquinho mesmo) menos forte que os dois filmes anteriores, e o motivo pra isso é o fato do roteiro não ser tão trabalhado quanto os outros. Aqui tudo ocorre como o previsto (mas não para o óbvio), e o que o roteiro fica devendo em relação aos outros longas, a parte técnica supre. Esteticamente, este é um dos trabalhos mais bem filmados e produzidos de Park, que bate de frente com I'm a Cyborg, But That's OK, que foi exibido aqui no ano de 2007 durante o Festival do Rio. O filme tem uma fotografia deslumbrante, uma trilha sonora linda e uma montagem, cortes, enquadramentos e direção de arte perfeitos. Enfim, um deleite para os sentidos.

A veia cômica do diretor está presente, como nos outros filmes da trilogia. Merece destaque a cena em que Geum-Ja vai à casa do casal que adotou sua filha, que é bem hilária. Há diálogos em inglês no longa, o que muitos apontaram, na época, como uma tentativa de aproximação de Park com o cinema ocidental. Talvez sim, talvez não.



Lee Yeong-ae (que também pode ser vista em JSA) está perfeita na pele da ex-presidiária Geum-Ja, mas gostaria que o Choi Min-sik, que também está ótimo, tivesse uma participação maior no filme, pois quem já o viu em outros longas sabe do que o cara é capaz.

Perverso, o filme nos leva a uma das cenas mais comentadas: a reunião de pais que acontece no fim do filme, que é de uma maldade simplesmente bizarra. É nessa reunião que Park cutuca a nossa moral, pois Geum-Ja tem milhões de motivos para se vingar, mas ainda assim pondera sobre o que fazer. E é aqui que Park nos faz uma série de perguntas como o que é justiça? Ela vale a pena se nos condenarmos? Será que o processo democrático é realmente a melhor saída em determinadas situações?



E com a responsabilidade de fechar uma trilogia bem-sucedida, Lady Vengeance traz um epílogo mais do que necessário, no qual mostra um indivíduo em uma busca infinita por redenção que pede ao espectador que permaneça íntegro, ainda que o que você tenha presenciado no filme seja o oposto. Talvez essa redenção de que o filme nos fala seja a tão esperada paz buscada não só por Lee Geum-Ja, mas por todos os personagens que foram mostrados de forma tão lúcida e cruel por Park na sua trilogia.

Imperdível como os seus antecessores, Sympathy for Lady Vengeance é um filme obrigatório para qualquer fã de cinema que se preze.



Nota: 09.00/10.00

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